Blogue para a comunidade da aldeia do Castelo, concelho de Mação

FESTAS DO CASTELO - 2013



       Imagens da Procissão em Honra de Nossa Senhora dos Remédios


    

 

                                                                                  


A Lenda de S. Gens




Realizam-se no segundo sábado de Janeiro – o dia do Santo seria 11 de Janeiro – na capela erguida no monte com o mesmo nome do santo e sobranceiro à povoação de Santos, freguesia de Mação, as festividades dedicadas a S. Gens.
O Culto deste santo, como o de muitos outros santos mártires, pela sua condição de patronus celestiais, cujos vínculos divinos resultavam numa superior capacidade de intersecção e protecção, remonta ao conjunto de hinos que compõem o “Peristephanon” em que se basearam pregadores medievais, fundadores de muitos dos actuais cultos. Para uns é um santo de origem céltica martirizado em Arles, na Gália, nas perseguições de 303 a 305 dC, no tempo do Imperador Diocleciano. Para outros foi martirizado em Córdoba sendo muito venerado em Espanha como San Ginés, e ainda para alguns foi bispo em Lisboa e pertenceu à Ordem de S. Paulo Eremita.
Igualmente variadas são as datas das celebrações em Portugal, ao contrário de Espanha, onde as festas de San Ginés são a 25 de Agosto.

É uma tradição ancestral a que podemos encontrar na lenda de S.Gens da aldeia dos Santos, imagem encontrada por um pastor no cimo de um monte entre as moitas. Foi a imagem levada para a igreja da povoação dos Santos, de onde desapareceu durante e noite, para ser novamente encontrada no cimo do monte. A situação repete-se algumas vezes, até que o povo decide construir uma capelinha no local, por ser esse o desejo manifestado pelo santo.
Outra versão, mas em tudo semelhante, é-nos apresentada por Francisco Serrano no livro “Monografia do Concelho de Mação”.
Nestes mitos das imagens aparecidas (que na maioria são imagens de Nossa Senhora) existe um elemento essencial que é a fuga das imagens, que se processa sempre da igreja para o monte, gruta, árvore ou penedo onde tinha aparecido, porque a igreja é aqui entendida como o templo institucional da religião, e a imagem que aparece nos montes pertence ao povo, que lhe reconhece poderes especiais, identificando-se com ela, e a ela recorre em situações extremas, e é portanto à população dos lugares que compete construir a capela para a imagem.  
Alguns autores atribuem a introdução do culto de S.Gens em Portugal à rainha D. Mafalda de Saboia, mulher de D. Afonso Henriques, com a construção da Igreja de S. Gens em Boelhe (Penafiel). Aqui, nos Santos, o culto de S. Gens  já era venerado no século XVIII, pois no “Diccionario Geographico de Portugal”, inventário das freguesias do Reino, realizado após o terramoto de 1755, é referido que à distância de uma légua da vila de Mação existia a “Ermida de Sam Gens, à qual por ocasião do terramoto se mudarem as paredes dos seus alicerces e ficou ameassando ruinha” …”vem romagens ao Senhor Jesus da Misericórdia e a Sam Gens de varias partes pello descurso do anno porque sam as Imagens mais milagrosas que tem esta freguesia”.
Tem este santo culto diminuto no país, sendo no entanto referido na Capela de S.Gens em Serpa; Capela de São Gens- Redondo; Loriga – Manteigas; Quintanilha – Bragança; Quadrazais – Sabugal; Mosteiro de S.Gens de Montelongo, Fafe; romaria de S. Gens de Cidai em Bougado – Trofa; monte de S. Gens em S. João da Ribeira – Santarém; Ermida de São Gens – Pontével; Capela de S. Gens em Pavia; Ermida de S. Ginés em Noudar – Barrancos e Capela do Monte de S. Gens em Lisboa (hoje capela da Nossa Senhora do Monte).
É S. Gens considerado hoje protector das artes cénicas mas mais interessante é ser também protector das parturientes como em Serpa, na capelinha de S. Gens, onde as futuras mães prometem uma “fitinha”de seda, a S. Gens, para terem um bom parto e na Capela da Senhora do Monte, em Lisboa, ainda existe a cadeira de pedra, a que chamam Cadeira de S. Gens. Diz-se que nesta cadeira costumava sentar-se S. Gens, que foi bispo de Lisboa e que teria sido martirizado neste local ainda no tempo do Império Romano. Existe ainda hoje uma curiosa tradição segundo a qual uma mulher grávida que quiser assegurar um parto bem sucedido deve sentar-se na Cadeira de S. Gens. A própria mulher de D. João V, D. Maria Ana de Áustria, foi lá sentar-se quando estava grávida do herdeiro do trono.

Na aldeia de Santos, junto à capela de S. Gens, existe uma fonte considerada milagrosa para o apetite e as virtudes associadas desta fonte (Santo/água milagrosa) têm paralelo com outra, na zona de Turquel – Alcobaça, chamada de Fonte Moreira cuja água também é considerada aperitiva – abre o apetite e atenua os desejos da mulher grávida.
É sabido que a fontes e as águas simbolizavam, como aqui, virtudes, e a imersão, a ingestão ou o simples contacto com ela, comporta sempre uma regeneração, um “novo nascimento”, porque as águas multiplicariam o potencial da vida. Entende-se, por isso, que as virtudes curativos da água desta fonte, por interferência de S Gens ou por qualidades medicinais, se tenham mantido na memória das populações da região e que, associada à fonte, exista ainda a memória da luta entre proprietários da zona pela água, o que levou a que a fonte secasse enquanto durou a disputa, ou melhor a profanação, porque a água não pertence aos homens mas ao santo, só tendo surgido novamente quando a água foi restituída à população.



Faleceu a 12 do mês de Março, Maria da Conceição Dias Lourenço, de 87 anos, nascida no Castelo a 1 de Abril de 1925. Filha de Joaquim Lourenço e de Etelvina Marques Dias vivia com seu irmão Delfim e sua cunhada Palmira, pois nunca casou.
Pessoa de grande devoção e sabedora de muitas orações e lengalengas com fundo religioso, que conhecia de cor, última guardiã desse repertório religioso e popular, cuja memória se vai perdendo com o desaparecimento da população mais envelhecida.
Recolhemos há alguns anos essas rezas, herança de anteriores recitadoras, e, apesar de algumas estarem incompletas ou serem apenas fragmentos, outras, resultado de constantes recitações, possuírem deturpações e acrescentos, não perdem esse carácter de cultura religiosa popular, consideradas como orações, pois muitas acrescentam no final a obrigação de rezar Pais-nossos ou Ave-marias. Tais rezas acompanharam a Maria da Conceição por toda a vida e estavam presentes em cada momento do seu quotidiano.

Para que não se percam da nossa memória, aqui ficam algumas dessas orações:

Rezo pelos meus pais / Que o Senhor os ponha em estado de Graça / Que o Senhor nos acompanhe aos mortos e aos vivos. / Rezo ao Divino Santíssimo Sacramento / Que me perdoe os meus pecados / Aqui lembrados.
(Oração que a Maria da Conceição rezava todos os dias, ao levantar e ao deitar.)

Padre-nosso pequenino / Todo o mundo vai seguindo / Cruz no monte / Cruz na fonte / Nunca o mal nos encontre / Nem de noite, nem de dia, / Nem ao pino do meio-dia / Já os galos cantam / Jesus vai para a Cruz / Para salvar nossas almas para sempre, / Amem, Jesus.

Salvé Rainha pequenina / Rosa divina / Cravo-de-amor / Mãe de Nosso Senhor / Mãe de juízo e entendimento / Santíssimo Sacramento

Na sepultura da vida / Estou deitada / Com sete anjos acompanhada / Três aos pés, quatro à cabeceira / Com Nosso Senhor Jesus Cristo à dianteira / Meus pecados que não disse ao confessor / Digo-os agora, meu Senhor / Vai a minha penitência / À minha alma salvação.

Nesta cama me deitei. / Sete Anjos encontrei / Três aos pés, quatro à cabeceira, / Nossa Senhora do Rosário / Na mais dianteira./ Ela me disse: deitar, poisa. / Que eu te Livro da má coisa.

Água Benta estou tomando / Água Benta estou deixando / Pecados ficai aí / Venho visitar N. ª Senhora / Faz tempo que não a vi.

Ó santo Anjinho do Céu / Lá naquela igreja pequenina / Com a fazenda sua vizinha / Me acompanhe esta noite / Ande a meu lado / Me livre de todos os perigos maus / Santinho me acode / Santinho Carnal / Santinho amoroso Carnal / Me acuda e me acompanhe / Santinho Carnal / Santinho do meu coração / Acompanhai-me / Não me deixes cair em tentação / Me acompanhe até à noite / Me livre dos perigos maus / Santinho Carnal / Acompanha a minha alma e o meu corpo. / Jesus, Maria
(Oração que a Maria da Conceição rezava quando ia à horta na Arroteia, e de lá avistava no alto do monte, a Capelinha de S. Gens.)

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